Águas agitadas

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Publicado em Notícias

No  pedaço de Atlântico que envolve a ilha do Pico, nos Açores, os problemas dos homens não parecem, para já, afectar a vida nos mares. O que alguns se perguntam é: até quando?

Num arquipélago onde o turismo está cada vez mais monopolizado pela observação das baleias e dos golfinhos, há três verões que uma equipa de uma fundação ambientalista holandesa anda à superfície a estudar o comportamento dos cetáceos. A tentar compreender o impacto do turismo na vida dos animais. Eles registam e analisam os comportamentos no mar. Defendem que este turismo devia ser diferente.

Mas o trabalho desta equipa não tem sido pacífico.
São olhados com desconfiança. São acusados pelas empresas de turismo de fazerem "whale watching" ilegal com os estudantes estagiários que, a troco de dinheiro, recebem todos os anos de universidades holandeses.

A verdade é que dos sete ambientalistas que estão no terreno só um tem formação científica. A presidente da Fundação foi ilustradora, o número dois da organização designer gráfico.

O conflito entre ambientalistas e empresas já passou aos actos. Dia sim, dia não sucedem-se no mar encontros pouco amigáveis.

O diferendo está agora em tribunal e envolve a mais antiga empresa do Pico, a "Espaço Talassa". Propriedade de um francês que há alguns anos chegou à ilha e que encontrou na observação das baleias um bom negócio.

Serge Viallelle nem quer ouvir falar dos holandeses. Reconhece que há problemas no mar. Que alguns operadores turísticos são pouco profissionais, mas acredita que a actividade tem sabido integrar-se no habitat dos animais.

O certo é que a fiscalização também não é muita. Para controlar as águas do Pico, Faial e São Jorge, a Polícia Marítima tem apenas 5 embarcações e 15 agentes.
Muito pouco para tanto mar e para tantos turistas. Chegam aos 25 mil todos os anos. A actividade rende já um milhão e meio de euros.

Entre baleias e golfinhos, nas águas açorianas, estão referenciadas 23 espécies.

Malcolm Clarke conhece bem demais uma delas. É um dos mais reputados especialistas internacionais em cachalotes. Hoje vive no Pico, onde construiu um museu de cachalotes nas traseiras de casa.

Do alto da sua experiência, Malcolm contraria os argumentos dos holandeses. Assegura que o "whale watching" não afecta os animais. Ao contrário do que se passa noutros locais do mundo, os Açores são ainda um bom exemplo.

Com toda a simplicidade, argumenta: se as baleias se sentissem incomodadas iam-se embora e nunca mais voltavam.

O que até agora, felizmente, ainda não aconteceu.

Bernardo Ferrão
Jornalista
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Reportagem SIC

21 de Setembro de 2005

 

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